COMO LIDAR COM AS BIRRAS? COM MAYA EIGENMANN Y FELIPE OLIVEIRA


Para te convencer a apertar o play no primeiro episódio da temporada “Os filhos chegam e as dúvidas também” vamos já dar um spoiler: não é apenas o seu filho que faz birra. A criança do vizinho faz e, pior, muito adulto também.

Foi essa provocação que a pedagoga e educadora parental Maya Eigenmann, mãe do Luca e da Nina, propôs enquanto conversava com Camila Antunes, cofundadora da Filhos no Currículo. O papo contou também com a presença do Felipe Oliveira, produtor de conteúdo e pai da Helena e do Luis Henrique, que nos falou sobre como podemos criar nossos filhos para a diversidade. Um papo divertido, emocionante e cheio de insights. Esperamos que gostem!

Confira os primeiros dez minutos desse bate-papo incrível:

Camila Antunes: Chega um momento em que descobrimos que a criança tem vontade, é verdade isso? Rs. Eu descobri quando minha filha começou a dizer “não!”, se jogar no chão do shopping e do supermercado. Eu não sabia o que fazer com essa cena típica da birra. Eu já passei por isso e eu imagino que muitas pessoas também. Maya, o que fazer nessa situação?

Maya Eigenmann: Ah, as famosas birras! A primeira coisa que eu gostaria de desmistificar aqui é que as birras não são apenas do universo infantil. Vamos falar sobre birra de adulto?! Quando discutimos com nossos parceiros e começamos a bater gaveta, porta, armário e ficamos naquele passivo-agressivo, o dia inteeeiro bufando dentro de casa para o parceiro perceber que estamos chateados..

A gente como adulto não se joga mais no chão mas nós também fazemos birra e a birra nada mais é do que uma intensa frustração até mesmo em termos neurológicos. É quando nosso sistema nervoso simpático entrou em ação, a gente está sem recurso emocional e a criança com aquele cérebro em desenvolvimento – vamos ressaltar aqui que o cérebro só está maduro aos 25 anos de idade. Com essa informação a gente começa a olhar para a birra de um lugar de um pouco mais de empatia e não pensar que as crianças se comportam assim para nos manipular, para nos chantagear, para nos magoar, nos atacar.

Às vezes achamos que as nossas crianças tem comportamentos desafiadores como se elas fossem adultos com más intenções. E quando nos sentimos atacados, o que fazemos? Contra-ataque! Muitas vezes entramos nesse movimiento e acabamos fazendo uma birra junto com a criança por que não temos controle emocional, não aprendemos a lidar com as emoções e no final das contas temos dos humanos fazendo birra.

Camila Antunes: Nem preciso comentar que eu já me vi nessa cena.  Eu desço pro parquinho e começo a disputar o baldinho. E no final, nós estamos na disputa com eles o tempo todo, não porque eles viraram adultos mas porque a gente virou criança, né. Eu achava que minha filha queria me atacar, cada vez que ela falava algo eu levava para o lado pessoal.

Maya Eigenmann: É um expressão intensa e nós temos medo de fortes emoções porque na nossa própria infancia fomos muito reprimidos, não tínhamos espaço. Não fomos alfabetizados emocionalmente. Então, em poucas palavras, é como se a gente estivesse olhando para o presente, para a criança que está na nossa frente com a lente do passado. Eu estou ali revivendo cenas que são gatilhos para mim. Só que se eu permaneço nesse estado de inconsciência, eu acabo não conseguindo acolher minha criança de fato, porque eu vou estar tão conectada com as minhas necessidades que não vou conseguir ver a necessidade da minha criança. Eu vou ter esse foco de satisfazer a minha necessidade que muitas vezes vai ser o quê? Controlar a minha criança, silenciar o choro dela, calar o choro dela.

Uma amiga fez uma analogia que eu gostaria de trazer aqui. Imagina que você está no meio do shopping ou supermercado e a sua criança cai no chão e começa a passar mal –  a vomitar, por exemplo. Se ela está passando mal, você não vai pensar duas vezes, você vai se debruçar no chão, ver o que está acontecendo com ela, você não vai reparar se alguém está te observando. As birras também são um pasar mal, só que emocional. Quando minha amiga me disse isso, abriu uma luz e eu refleti sobre isso. Quando a criança passa mal físicamente, eu acolho. Quando a criança passa mal emocionalmente, eu não sei lidar.

Camila Antunes: Faz tanto sentido porque muitas vezes cuidamos das emoções de um lugar apartado, como se fosse algo separado de quem somos. Se você quebra o braço, você engessa. Se você não está bem com suas emoções, você não cuida porque você vai dar conta sozinho. E não damos conta sozinhos de nossas emoções, né?

 Maya Eigenmann: Nosso cerebro é um órgão social, nós precisamos de outras pessoas para da conta das coisas e as nossas crianças não vão aprender a se regular sozinhas. Primeiramente, elas não tem – literalmente, a massa cefálica para isso até os quatro anos de idade. Só a partir de 3 para 4 anos que o córtex frontal começa amadurecer e a criança pode começar a ter essa habilidade de se regular contanto que um adulto esteja lá para fazer ese: frustação-acolhimento. Quanto mais isso se repete, mais resiliência emocional essa criança terá.

Camila Antunes: Amei! O que fazer na prática com a birra? Quando está todo mundo olhando…

Maya Eigenmann: Vamos começar com um combinado, entre nós aquí. Quando a gente estiver em um lugar e uma criança começar a fazer birra, não vamos mais olhar para essa família. É muito constrangedor, a sociedade ainda pensa que a criança está ali para servir os adultos. Os de cerebro maduro ficam incomodados com os de cérebro imaduro. É muito injusto! A frase que eu uso muito “A raiva não educa, a calma educa” entra nesse contexto porque enquanto eu estiver alterada e a minha criança estiver alterada, não vai acontecer aprendizado.

Então se você está nessa cena de estar no shopping, no restaurante, sua criança está fazendo uma birra naquele contexto, se você está sentindo muita pressão, pega essa criança no colo e sai de cena. Eu já fiz isso inúmeras vezes. Porque eu não vou dar conta dessa pressão toda. Eu preciso reconhecer meu limite. Não é sobre ter mais paciência, é sobre eu conseguir reconhecer onde minha paciência termina e respeitar.

Camila Antunes: Nossa, isso é muito diferente. No final, nós queremos ter mais paciencia, quando na verdade é se respeitar no limite. Para mim o choro e o grito é um gatilho, como eu quero controlar isso, como eu preciso que eles parem de gritar. Felipe, como é para você atravessar uma tempestade dessa?

Felipe Oliveira: Desde quando eu comecei a vivenciar alguns quadros de birra e crises públicas eu uso uma capa em minha volta e não absorvo nada de olhar externo. Eu não sou fã de Harry Potter, mas dizem que ele tem uma capa de invisibilidade, então eu uso essa capa. Eu realmente não me preocupo com olhares das atendentes de caixa, das outras mães e pais porque muitas vezes o julgamento não é pela criança é para o pai. O pai não tem a vergonha pela criança. A vergonha dele é por ele estar sendo julgado, por ele não ter pulso firme, não ter voz ativa com a criança..

Idealização Filhos no Currículo e patrocínio Mustela.

Clique abaixo e ouça o episódio completo.

 

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